Precisamos falar sobre isso! 

O NAPESP foi pensado para trabalhar com duas variáveis importantes da nossa sociedade: a vulnerabilidade penal e social. Nós sabemos que a violência está influenciada por um grande número de fatores. Qualquer prática a ser realizada, para esse fim, deve partir do princípio que é impossível dar conta de equilibrar todos os agravantes que podem levar o indivíduo a recorrer ao crime. Isso é uma tarefa que claramente deu errado no âmbito do sistema penal, pois definitivamente o Direito não conseguiu equacionar os fatores econômicos, sociais, individuais e situacionais que podem gerar a reincidência e a violência.

A Psicologia também não tem por pretensão resolver uma questão de ordem muito maior do que o indivíduo. Isso significa dizer que o trabalho da Psicologia não conseguirá dar conta da defasagem social na qual a maior parte da população egressa está inserida. O objetivo da clínica é somar e poder construir com outras áreas e outras militâncias, uma melhoria social. Ampliando e garantindo direitos, apostando na singularidade e na responsabilidade e não mais na culpabilidade e no isolamento.

O atendimento psicológico se compromete a realizar uma escuta compreensiva, se preocupando com o contexto em que o indivíduo está inserido, as razões pelas quais o levaram a praticar tal ato, a estrutura psíquica, a dinâmica emocional, as relações com os laços sociais, os recursos internos, as formas de elaboração, os distúrbios mentais, entre outros componentes que estruturam qualquer sujeito na contemporaneidade. Uma vez inseridos no contexto de acolhimento e escuta, o egresso usuário inevitavelmente se colocará de frente as razões pelas quais transgrediu, construindo junto com o terapeuta, a responsabilidade em fazer escolhas e o estreitamento com o papel do outro, conseguindo elaborar novos modos de ser e estar no mundo. Direcionando, assim, o sujeito para uma nova dinâmica pessoal.

Independente do público a quem se destina, a clínica precisa ser capaz de acolher o indivíduo em sua singularidade, respeitando a riqueza da sua experiência de vida e da problemática social no qual está envolvido.Essa forma de trabalho aposta que são os próprios indivíduos, representantes de suas questões, os responsáveis em promover mudanças no modo como encaram seu próprio mal-estar. Uma vez que se entende que o espaço social é produto das forças institucionais, mas também é produto das forças individuais. Portanto, a clínica é um espaço de resistências, capaz de promover mudanças, de questionar valores e construir novas potencialidades no mundo. 

A clínica enquanto um dispositivo social deve ser entendida como um lugar singular de possibilidade. Lugar de experimentação e de afirmação, onde o sujeito é impulsionado a movimentar-se, sem poder prescindir de mudanças que irão colocá-lo de frente aos atravessamentos de toda sua história. Só assim, a clínica que não se ocupa em buscar a verdade, mas a inquietação, torna possível colocar a vida numa perspectiva de menor sofrimento possível.Visto assim, entende-se que o atendimento psicológico é um dos trabalhos que na execução penal pode vir a trazer resultados importantes nos índices de criminalidade.

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Com toda certeza, a pena privativa de liberdade é inegavelmente dessocializadora. Entretanto,apesar de todos os seus efeitos e defeitos, é  preciso que ela seja minimizada ao máximo com alternativas que realmente podem trazer benefícios a harmonia da sociedade. Se a prisão é de antemão falha em socializar quem quer que seja, isso não significa dizer que a finalidade “ressocializadora” não tenha mais lugar. A partir desse aspecto, é importante que adotemos novas políticas de diálogo, onde efetivamente sejam promovidas estratégias capazes de se libertar dos engessamentos hoje vivenciados dentro do Sistema Penal.

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A capacidade de restabelecer o diálogo entre o sujeito condenado e a sociedade pode estar em outro lugar, partir de outra ciência, percorrer caminhos diferentes. O poder da reintegração, ao contrário do que se espera, concentra-se na própria sociedade. O poder punitivo e ''ressocializador" do Estado é falho e são os possíveis atores não jurídicos que irão conseguir trilhar um caminho capaz de minimizar os efeitos drásticos do encarceramento que tendem a favorecer o retorno à criminalidade e à reincidência.